segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A falência de Dubai

É sintomático o pedido de default (calote) de Dubai. Empurrado por um projeto que combinava financiamento externo, mão de obra importada e atração de negócios em serviços, o pequeno emirado era uma síntese do que chamamos de bolha. O que se fez ali impressiona, porque não é pouco fazer arranha-céus e ilhas artificiais no meio do deserto. Mas havia algo de estruturalmente errado. A produção real de Dubai não daria conta de financiar seu crescimento, que dependia da aceitação da ideia de que o emirado seria um entreposto moderno. A finança tem essa habilidade de tomar dinheiro barato, canalizar para ideias e transformá-las em realidade. Funciona bem, até o ponto em que a realidade começa a ficar para trás. Como no mercado imobiliário de Dubai. Como na Califórnia, ou na Flórida. No Reino Unido.

A crise ainda não acabou. Não se sabe quantas Dubais estão aí à frente esperando para serem varridas dos balanços dos grandes bandos. E, pior, o desbalanço da economia global, origem primária da crise, continua. A China, com seu crescimento simbiótico, dependente de exportações, continua acumulando reservas e colocando-as de volta no mercado financeiro, que procura novas Dubais. Que desta vez pode ser o governo norte-americano. Há gente dizendo por aí que o déficit público dos EUA é uma nova bolha. Só que de um tipo que nunca vimos explodir na hitória do capitalismo.

domingo, 22 de novembro de 2009

O Rock e a Moda - Parte 3

A geração sem futuro e o futuro de Vivienne
Em meados dos anos 70, a Inglaterra passava por uma intensa crise econômica. A taxa de desemprego era alta e a tensão entre as classes aumentava progressivamente. Os jovens não viam perspectiva: por onde quer que andassem, enxergavam apenas desolação e falta de esperança. Não havia o que fazer e muito menos lugar aonde ir. Dentro desse cenário, uma pequena butique no final da King’s Road (sempre ela!), em Londres, acabou servindo como ponto de encontro para essa juventude sem futuro.

Batizada de Sex, a loja pertencia a um jovem casal de estilistas, Malcolm McLaren e Vivienne Westwood, e vendia diversos artigos feitos de couro, metal e vinil, com claras inspirações sadomasoquistas. Dessa forma, Vivienne acabou se tornando a responsável por dar uma identidade visual a esses jovens e conferir ao movimento uma contextualização intelectual, o que lhe valeu o título de “rainha dos punks”. Para a alegria de sua clientela, sua criatividade não tinha limites: o que importava era descobrir até que ponto poderiam ir suas provocações, que envolviam, entre outras coisas, camisetas com mensagens ofensivas, peças repletas de detalhes metálicos, jaquetas surradas e calças rasgadas, além dos famigerados penteados moicanos coloridos. Graças à sua ousadia e capacidade de inovação, Vivienne ganharia renome e consagração internacionais, tornando-se uma das estilistas mais importantes da sua época.

Mas o legado de Vivienne não seria a única contribuição da Sex para a história do punk. Foi entre aquelas quatro paredes que nasceria também a banda-ícone do movimento: os Sex Pistols. Empresariados por McLaren, seus integrantes eram compostos por clientes e funcionários da loja. As canções dos Pistols eram bastantes simples e seguiam o modelo adotado por todas as bandas do movimento: músicas de no máximo três minutos, raramente com mais de três acordes. No punk, não era necessário saber tocar nenhum instrumento direito: o que importava era a atitude. Muito do espírito do punk pode ser perfeitamente resumido na postura do vocalista Johnny Rotten ao entrar para a banda. Quando perguntado pelos outros membros se sabia cantar, respondeu, sem pestanejar: “Não. Mas eu sei gritar.”

Os Sex Pistols: punk de butique.

A atitude do “faça você mesmo” levou milhares de jovens do mundo inteiro a montarem suas bandas e passarem a enxergar a música como uma possibilidade de futuro. O ideal e o visual punks se espalharam rapidamente, ainda que nos Estados Unidos, um país mais rico e menos ligado à moda, eles tenham ficados de certa forma retidos ao cenário underground. A cor preta, símbolo do movimento, marcaria também diversos outros estilos, como o gótico e o minimalismo japonês, e sua praticidade e sobriedade fariam dela uma mais fortes identidades da moda dos anos 80.

Mas nem tudo era revolta e desolação. Ao mesmo tempo em que os punks espalhavam lemas como “No Future” e “Fuck Off” pelos muros londrinos, havia gente que estava apenas a fim de se divertir. Era a febre disco, que trouxe às pistas um visual colorido, prático e repleto de brilho. O disco se tornou um imenso fenômeno musical e ajudou a trazer mais descontração e irreverência não só para a moda feminina, mas também para a masculina. A onda das discotecas, retratada em filmes como “Os Embalos de Sábado à Noite”, seria a última grande tendência a surgir nos anos 70. Mas uma nova década se aproximava, e a própria idéia do valor da moda como expressão da personalidade estava prestes a mudar.

Anos 80: o individualismo pós-moderno
Desde a metade do século, definida por convenção como início do pós-modernismo, algumas tendências começaram a se verificar nas ciências, artes e na própria sociedade. Entre elas, estavam a releitura do passado e a inclinação ao individualismo. Essas propensões foram se intensificando aos poucos e, ao menos no que diz respeito à moda, encontraram seu auge nos anos 80.

Foi nesse período que, mais do que nunca, o modo de se vestir se tornou um símbolo de pertencimento a um grupo. Ao mesmo tempo, as pessoas perceberam que era possível dar um toque pessoal e único às suas roupas, sem ter que abdicar das características gerais dos estilos nos quais se enquadravam. Dentro desse processo, aos poucos foi se percebendo que era possível encontrar inspiração no passado, misturando e reinventando características de diversos movimentos para criar um visual totalmente novo. É o caso de diversos artistas–símbolo dos anos 80, como Prince, Boy George e Madonna.

Vinte anos depois, ela encontrou Jesus.

Tomemos Madonna como exemplo, por ser ela capaz de personificar ambas as tendências. Com a rainha do pop, sai de palco a coletividade das bandas e entra o individualismo da mulher-espetáculo: Madonna é o show, e isso basta. Cai fora o visual único que permitia reconhecer uma banda a milhas de distância, e entra em cena o pastiche da mulher-camaleão: Madonna é punk, é material girl, é a reencarnação de Marilyn Monroe. Sua imagem de mulher forte, ousada e ambiciosa inspirou adolescentes do mundo inteiro, que enxergariam na cantora americana um modelo a ser seguido e passariam a comprar seus álbuns milionários e a lotar seus shows, concebidos no formato de superproduções, por muitos anos.



Continua...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Filmes e livros

Comentários rápidos sobre filmes e livros que assisti e li recentemente.





O grupo Baader Meinhof
“O que é isso, companheiro?” com passaporte alemão. O diretor Uli Edel abusa na ação e na violência para contar a história do grupo guerrilheiro alemão que apavorou a RFA nos anos 70. A imprensa brasileira caiu em cima, talvez pelo fato do filme dar voz a uma organização terrorista de esquerda. Mas mesmo que a visão seja um pouco romanceada, a impressão que fica é de que sobrava hormônio e faltava neurônio. Bom mesmo deveria ser morar do outro lado do muro.

Direção: Uli Edel
Com: Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu, Johanna Wokalek
Gênero: Drama
150 min



Trama internacional
Policial idealista tenta provar o envolvimento de banco multinacional em guerras e assassinatos. Direção estilosa, sem sofrer de complexo de atenção. Ainda que force a barra nas coincidências, o roteiro surpreende, com um discurso mais à esquerda do que seria de se esperar de um filme produzido por um grande estúdio como a Sony Pictures (o que talvez acabe invalidando suas idéias pela hipocrisia). E a cena do tiroteio no Guggeinhem já nasceu clássica.

Direção: Tom Tykwer
Com: Clive Owen Naomi Watts, Armin Mueller-Stahl
Gênero: Suspense
118 min




O príncipe maldito
Fruto de uma impressionante pesquisa histórica, o livro revela detalhes dos bastidores do poder e da vida privada da família real, focando na figura trágica de Pedro Augusto, neto de D. Pedro II e suposto favorito para a linha sucessória, que mais tarde acabaria internado em um hospício. O único porém fica por conta do estilo afetado da autora que, ao tentar romancear o relato, acaba assumindo o papel de narrador onisciente e se põe a projetar o fluxo de pensamentos dos personagens. Não é todo mundo que nasce Clarice Lispector.

Autora: Mary Del Priore
Editora: Objetiva
296 páginas




D. Pedro II
Com uma prosa que consegue ser elegante sem se perder em floreios, José Murilo de Carvalho traça um retrato benevolente de D. Pedro II, talvez uma das figuras mais subestimadas de nossa historiografia. Ao percorrer as páginas deste livro, o leitor fica sabendo que o imperador respeitava a liberdade de imprensa (“A imprensa se combate com a própria imprensa”), pagava suas viagens internacionais do seu próprio bolso, criticava a soberba da classe política e via na educação o caminho para o progresso. Deveria ser leitura obrigatória em Brasília.

Autor: José Murilo de Carvalho
Editora: Companhia das Letras
288 páginas

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O futuro (paralelo) do livro


Você que me lê agora e que navega com destreza pela internet talvez nem imagine, mas o seu teclado foi projetado para complicar a sua vida. A história é conhecida: a disposição atual das teclas, o famoso padrão QWERTY, foi herdada das máquinas de escrever. Ao perceber que os usuários digitavam cada vez mais rápido, causando o enroscamento dos martelos que imprimiam os caracteres no papel, um fabricante de máquinas datilográficas lançou um desafio entre seus funcionários: criar uma tecnologia para acelerar os teclados. A iniciativa não teve muito resultado, até que alguém resolveu pensar fora da caixa e sugerir: por que, ao invés de aperfeiçoar as máquinas, não tornamos os digitadores mais lentos?

Foi o que aconteceu: as letras mais utilizadas, como “A” e “E”, foram jogadas para os lados, obrigando o usuário a utilizar os dedos mínimos para alcançá-las, o que dificultava a tarefa de escrever. Com o advento dos computadores, a necessidade de diminuir a velocidade dos digitadores deixou de existir, mas o padrão QWERTY seguiu firme e forte por um simples motivo: já estava consagrado.

Essa história, que li há muito tempo em um livro sobre criatividade chamado “Um toc na cuca”, sempre vem à minha cabeça quando passo os olhos sobre alguma nova matéria relacionada aos livros digitais. Isso porque, por mais inovador que um Kindle possa parecer (imagine carregar uma biblioteca inteira em sua mochila!), seu funcionamento básico é análogo ao de um livro de papel: é preciso virar páginas, a leitura é linear, feita de cima para baixo e da esquerda para a direita. Até o tamanho do aparelho é similar ao do seu colega centenário.

Dessa forma, assim como o uso do padrão QWERTY pode parecer absurdo para o usuário do século XXI, a tecnologia dos livros digitais parece cega às reais possibilidades que a digitalização e a democratização das informações proporcionada pela internet oferecem. Fala-se muito sobre o déficit de atenção das gerações mais novas e da sua dependência psicológica de interatividade e estímulos visuais. “Os jovens não lêem mais” é algo que se ouve muito por aí. Mas o fato é que as formas de narrativa consagradas, como o romance, a novela e o conto, permanecem presas a regras estabelecidas há centenas de anos. Não se atualizaram, não se renovaram: talvez essa seja uma explicação para a literatura estar se tornando “coisa de velho”.

Uma opção seria, então, adequar os livros às novas tecnologias. Se a moda agora é o blog e o twitter, por que não um blog-romance, onde os comentários acrescentariam subtextos aos dilemas do autor-narrador? Se a onda são os vídeos no you tube, por que não agregar filmes e fotos como forma de enriquecer a experiência proporcionada pela leitura? Antes que algum leitor torça o nariz, lembro que autores como Valêncio Xavier já fizeram experimentações nesse sentido, mesclando fotos, texto e recortes de jornal em livros consagrados como “O Mez da Grippe”. Ou melhor, por que não fazer da internet o palco para um grande, imenso romance, sem começo nem fim, com infinitos caminhos e becos sem saída, onde o leitor define a linearidade da sua história navegando por uma imensidão de links interconectados, em uma espécie de “O jogo da amarelinha” do século XXI?

Outros conceitos, como realidade aumentada, também poderiam ser aproveitados. Soube de um joguinho para Game Boy em que o jogador caça fantasmas em sua própria casa, fantasmas que só consegue “ver” através da tela do aparelho. Por que não desenvolver um software parecido com fins literários? Filma-se a realidade, o software reconhece os estímulos e a partir deles forma poemas que interagem com a imagem captada e exibida na tela. Talvez pareça bizarro ou repulsivo, mas tenho certeza que a poesia concreta já fez coisa muito pior, e houve quem aplaudisse.

Ou, indo ainda mais longe, que tal usar ambientes de realidade virtual, similares ao Second Life e aos RPGs on-line, para reproduzir cenários literários, possibilitando ao leitor extrapolar o conceito de Umberto Eco de que o romance tem no leitor o seu segundo autor? Imagine caminhar por Macondo, interagir com seus personagens, viajar ao lado do cigano Melquíades, comer terra com Rebeca, cunhar peixinhos de ouro ao lado de José Arcádio.

Literatos mais conservadores sempre poderão afirmar que tudo isso não passa de masturbação mental, que nada substitui a força de uma boa história, com começo, meio e fim. Eu próprio já argumentei, em post anterior, a favor do poder do livro de papel como objeto e conceito. Acredito que, por mais que as idéias apresentadas aqui um dia vinguem e provem ser mais do que o resultado de uma tarde de ócio, o livro como o conhecemos sempre prevalecerá. Interativa ou não, haverá literatura para todos. O que importa é que a arte da narrativa sobreviva. Entretanto, a grande questão que gostaria de expor é: se vamos digitalizar, se vamos modernizar, então que chutemos o balde, que pensemos fora da caixa. Do contrário, o livro digital será como o teclado QWERTY: uma idéia que, por estar presa ao passado, não realiza seu potencial e acaba se tornando um estranho anacronismo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Murdoch contra o Google

Rupert Murdoch é um magnata excêntrico que insiste em investir em mídia. Tem jornais na Austrália, Reino Unido e Estados Unidos - onde fica a joia da coroa, o The Wall Street Journal. Mais excêntrico ainda, é ele comprar briga com o Google (e outros sites de buscas que, segundo ele, roubam conteúdo de seus sites). Murdoch está à frente do mais bem-sucedido modelo de venda de informação pela internet, o do WSJ, que tem mais de um milhão de assinantes e que não canibalizou as vendas de jornais impressos, por ora. Ele soube dar valor ao que produz e está à frente de uma máquina única de geração de conteúdo, com mais de mil jornalistas (o que inclui a agência Dow Jones). E não quer dar nada de graça. Quem quiser pesquisar seu conteúdo, vai ter que entrar no site, pelo que ele deu a entender.

Hoje o WSJ tem uma combinação de conteúdo fechado e aberto. O que sai de graça é uma espécie de isca para dar mais acessos ao (bom) site, mas é no conteúdo fechado que o jornal aposta. Ali estão as informações exclusivas pelas quais as pessoas pagariam. Em um acordo com o Google, o WSJ abre o conteúdo fechado para quem entrar no site através do buscador. Assim, uma dica: viu uma matéria no WSJ que é fechada? Basta procurar o título no Google, que dá para ler. A ideia é que o site se torne referência dentro do concorrido mundo das buscas, o que garante fluxo e receita publicitária.

Murdoch dá a entender que isso não é importante dentro de seu modelo. Não quer ninguém mais "roubando" seu conteúdo. Não sei até que ponto vale sua lógica, já que os links, mesmo com conteúdo fechado, poderiam aparecer na busca do Google. É claro que para o site de busca o que interessa é organizar conteúdo dos outros para ter acessos e, quem sabe, um cliquzinho ou outro em seus links patrocinados. Para o Google, pode ser o sinal dos tempos: se as pessoas não encontrarem mais o que querem, vão procurar em outro lugar. Não acho que chegaremos a tanto, porque a grande maioria dos sites ainda prefere ter tráfego a procurar assinantes. Mas é provável que alguns portais fiquem com a segunda opção.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O rock e a moda - Parte 2

Swingin London
No início dos anos 60, a capital inglesa não era apenas um lugar. Era o lugar. Se você era jovem, se você era “in”, se você queria estar no centro dos acontecimentos, então você queria morar em Londres. Uma série de fatores contribuíam para compor esse cenário. Os liberais, pela primeira vez em treze anos, assumiam o governo. A classe baixa estava em ascensão: ser do povo era cool. A malandragem, a esperteza, o crime organizado reinavam soltos: valia tudo para ter seu espaço ao sol. O cenário era perfeito para o aumento da liberdade pessoal, para as experimentações, para a emancipação sexual feminina e para a explosão das mais diversas formas de arte.

A moda estava por todos os lados. Estilistas saíam das escolas de belas-artes e ganhavam o mercado, abrindo lojas em cada esquina. Mary Quant inaugura a Bazaar na lendária King’s Road e coloca as pernas das mulheres à mostra com a minissaia. Barbara Hulanicki leva o mundo teatral para sua boutique Biba e cria uma moda com inspiração romântica e exótica. Foale e Tuffin tomam a decisão de combinar pantalona e túnica ao som de muito rock’ n’ roll em sua pequena loja na Carnaby Street.

The hippie hippie shake.

As novas possibilidades não paravam de surgir para os Fab Four. Aos poucos, os Beatles começaram a adotar lições da filosofia oriental e se tornaram adeptos de um visual inspirado em modelos indianos. Mas, dessa vez, não estavam mais inventando moda. Eram apenas mais uma banda a entrar na onda da cultura hippie, que nascia e ganhava força também do outro lado do Atlântico.

Faça moda, não faça guerra
Revoltados com a Guerra do Vietnã, engajados na luta pelos direitos civis iguais para todos os grupos, indignados com o establishment, os jovens decidiram pôr abaixo as instituições mais básicas, criando comunidades totalmente à parte do sistema capitalista. Através de um visual “pobre” e homogêneo, os hippies dificultavam a distinção de classes em seu meio. Suas roupas, bastante coloridas, ganharam enfeites artesanais e floridos. Os cabelos eram longos e despenteados. As calças boca-de-sino cobriam os pés, muitas vezes descalços. Essa geração, famosa por entoar gritos de “paz e amor”, teria seu grande momento de celebração e difusão de idéias em 1969, naquele que viria a se tornar o concerto mais famoso da história do rock.

Realizado em uma fazenda a algumas horas de Nova York, o festival de Woodstock reuniu milhares de jovens com um mesmo ideal para assistir a artistas como Santana, Janis Joplin e Jimi Hendrix. O movimento hippie ganhou tanta força com o evento que viraria a década e continuaria sendo o principal elo de ligação entre música e moda até o surgimento de uma nova tendência, bastante inusitada e extravagante: o glam rock.

Nascido de uma derivação da palavra “glamour”, o termo glam foi escolhido para designar o estilo de alguns artistas que tinham em comum o visual composto por muito brilho e maquiagem, além da postura teatral, do som pop e da sexualidade altamente ressaltada em suas apresentações. Parte do glam era a mais pura diversão: não havia muita substância, apenas superfície e aparência. Era o caso de artistas como T. Rex e Gary Glitter. Do outro lado, estavam astros muito mais dramáticos e ambiciosos, como David Bowie, criador do alter ego Ziggy Stardust, uma estrela do rock andrógina vinda de outro planeta. Toda essa teatralidade e valorização do visual abririam caminho para aquele que pode ser considerado o movimento musical (e principalmente sócio-cultural) mais importante desde a beatlemania: o punk.




Continua...

As medidas do sucesso


Curioso como o conceito de sucesso no mundo esportivo se altera profundamente quando comparado com o dito "mundo real", principalmente para os brasileiros. O caso do piloto Rubens Barrichello é exemplar.

Há nada menos do que 17 anos, Rubinho integra o seletíssimo grupo de pilotos da Fórmula 1, considerada a elite do automobilismo mundial. É o recordista de grandes prêmios disputados na categoria, tendo participado de 288 provas, sendo que venceu onze delas e pontuou em outras 196. Foi duas vezes vice-campeão do mundo e é o quarto piloto que mais subiu ao pódio na F-1, terminando entre os três primeiros em 68 corridas. Para 2010, já tem contrato assinado com a Willians, uma das equipes que, mesmo passando por um momento de instabilidade, segue como uma das mais tradicionais da F-1. Mesmo assim, é provavelmente o esportista brasileiro mais achincalhado da história.

De fato, Rubinho parece sofrer com uma sina ou um péssimo azar que fazem com que certas coisas só aconteçam com ele. Mesmo assim, seus resultados são significativos, longe de serem desprezíveis. Mas o que chama mesmo a atenção é que até o salário do piloto, inatingível para 99,9% dos brasileiros, vira motivo de piada.

Em matéria recente para a TV Lance, que o leitor pode acompanhar clicando aqui, o comentarista satiriza o fato de Rubinho ter "apenas" o 16º maior salário da F-1. Isso mesmo informando que por "apenas", entenda-se U$ 1 milhão ao ano (ou cerca de R$ 1,7 milhão). Se essa foi a média dos salários de Rubinho durante sua carreira na F-1, é só multiplicar por 17 para saber que o piloto, aos 37 anos, já acumulou uma fortuna de mais de R$ 20 milhões. Isso só de salário, aquele que sua equipe lhe paga todo mês – sem contar as premiações por pódios ou corridas vencidas e o faturamento com cotas de patrocínio. Nada mal...

Agora imagine que Rubinho, ao invés de piloto, fosse um executivo brasileiro que trabalhasse em uma multinacional de automóveis e que, durante sua carreira, chegasse à vice-presidência mundial dessa empresa. Independente do salário que recebesse, seria difícil encontrar alguém que não o considerasse um executivo de sucesso e, principalmente, uma pessoa bem sucedida.

Aí é que, ao menos para os brasileiros, existe a ruptura entre o conceito de sucesso no mundo esportivo e na “vida real”. Nos esportes, mesmo aqueles de alto rendimento, com alto grau de competitividade, quase nada além do primeiro lugar é admissível. O segundo colocado é apenas o primeiro dos últimos. O que interessa é vencer. Caso contrário, restam a descrença as piadas, relegando o ser humano a último plano.

E é isso que vem atormentando Rubinho em boa parte de seus 17 anos na F-1. Tamanha aporrinhação acabou irritando o piloto, que ao menos aparentemente, sempre lidou bem com as brincadeiras. No domingo passado, após a última prova da temporada 2009, em que terminou na quarta colocação, o piloto foi à forra no Twitter, onde tem mais de 280 mil seguidores. “Na vida temos que encarar as dificuldades com otimismo. Trabalhar duro com sorriso na cara esperando sempre pelo melhor... Pra vc que não tem o que fazer e quer tirar um sarro do resultado de hj dê uma olhadinha na sua vida e veja se é feliz como eu sou”, disparou.

Para bom entendedor, dois simples tweets bastam...

Ficou para 2010

Já estava meio na cara que um novo pacto global para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, esperado para sair em Copenhague em dezembro, ficaria para depois. Nesta semana em Barcelona, a União Europeia disse que o acordo vai mesmo ficar para o ano que vem. Faltarão então dois anos para o fim de Kyoto, o protocolo que teve efeitos pífios, mas nos deu um formato para novos acordos.

Parece que dois anos é tempo bastante, mas acho que temos aqui um sinal vermelho aceso. Nada garante que até o ano que vem os atritos de agora estarão resolvidos -- os americanos ainda preferem uma meta interna, mais leve, o Brasil perdeu a chance de propor sua própria meta, a UE está rachada entre Leste e Oeste, a China não diz a que veio e a Índia não quer conversa. Temos um cenário complicado para implementar medidas que não são simples. Se haverá uma nova meta para o período 2012-2020, os países precisam se preparar desde já. Fiquemos com o exemplo do Brasil. Em um pacto ideal, o Brasil teria de apresentar uma meta -- algo como reduzir o desmatamento em 50% ou 80% até 2020. Se começar em 2012, terá perdido um tempo precioso.

Nesta semana fui à abertura do Global Forum em Curitiba, onde eles reprisaram um vídeo gravado pelo economista Jeffrey Sachs. Ele se tornou respeitado por seu trabalho sobre a redução da pobreza e é um dos maiores especialistas em sustentabilidade do mundo. Ele toca na Universidade de Columbia um dos melhores centros de estudos do assunto no globo, e lança o desafio: os céticos que não acreditam no aquecimento global que passem em Columbia. O centro coloca à disposição de quem quiser 800 dos maiores especialistas do mundo. O alerta de Sachs é o seguinte: temos ainda como fazer uma escolha entre desacelerar as mudanças climáticas ou pagar para ver. E, sinceramente, eu não jogaria pôquer com as forças da natureza. O vídeo está aqui:

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Filmes

Comentários rápidos sobre filmes vistos recentemente.

Substitutos
Estrelado por Bruce Willis, “Substitutos” parte de uma premissa interessante: o que aconteceria se o Second Life saísse do computador e ganhasse a realidade? Infelizmente, as inúmeras questões éticas e filosóficas que a trama poderia levantar ficam, em grande parte, no papel (ou na imaginação do espectador ao sair do cinema). As cenas de ação e os efeitos especiais são apenas corretos. Se for visto como ficção científica, o longa pode decepcionar, mas se for encarado como um policial, está bem acima da média.

Direção: Jonathan Mostow
Com: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike
Gênero: Ficção científica, policial
104 min.

Anticristo
No filme-polêmica de Lars Von Trier, você irá ver cenas de sexo explícito, de tortura e de mutilação auto-imposta. Mas, passado o choque inicial, o que sobra é uma história meia boca sobre a maldade intrínseca do homem e sobre o fracasso em se tentar impor uma lógica à natureza (como avisa a raposa falante, “o caos reina”). Visualmente, o filme tem seus atrativos, mas nada que Von Trier já não tenha feito antes sob a estética do Dogma. Talvez o único destaque fique por conta da entrega total de Gainsbourg. Quem diria que filmes como “O albergue” e “Jogos mortais” teriam um efeito benéfico: ao amortecerem nossos sentidos contra o bizarro, nos tornam enfim capazes de enxergar os defeitos de obras como esta.

Direção: Lars Von Trier
Com: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg
Gênero: Terror, drama
109 min.

Te amarei para sempre
Como contar uma história de amor sem cair na mesmice? Usando elementos fantásticos. Essa é a resposta encontrada por alguns dos poucos filmes românticos originais lançados recentemente nos EUA, como “A casa no lago” e este “Te amarei para sempre”. Aqui, o que dá o tempero de ineditismo é o protagonista capaz de viajar no tempo. Ainda que demore um pouco para engrenar, a história funciona e envolve, além de conseguir tocar, com leveza e bom humor, os paradoxos que o tema envolve e os efeitos que ele teria sobre a vida de dois amantes. Ótima surpresa.

Direção: Robert Schwentke
Com: Rachel McAdams e Eric Bana
Gênero: Romance, ficção científica
107 min.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Nudge

Não é sempre que posso dizer que o governo acertou ao mudar impostos. Um estado cujos gastos aumentam mais do que a receita deixa qualquer contribuinte com o pé atrás. Mas na semana passada foi anunciada a manutenção do IPI reduzido para a linha branca com um critério novo: paga menos imposto o produto que usar menos energia. Esse é um típico caso em que o governo é esperto o suficiente para empurrar os cidadãos na direção correta. Não é certo que as pessoas, movidas por interesse próprio, como prevê a economia elementar, escolham o refrigerador mais eficiente porque querem economizar na conta de luz. Elas podem escolher a geladeira mais bonita, ou a mais barata, independentemente da tecnologia empregada. O governo acaba de ajudá-las na escolha.
Descrevo a ação do governo como um empurrão porque estou imitando a expressão em inglês "nudge", usada por Richard Thaler e Cass Sunstein em (ótimo) livro homônimo, já traduzido para o português. Eles defendem uma espécie de estado intervencionista esperto, que deixa as pessoas livres para decidirem, mas corrige algumas imperfeições do mercado. No caso das geladeiras, o governo já tinha colocado etiquetas que indicam o consumo. A informação ajuda, mas nem todos sabem interpretá-la. O imposto diferenciado é um empurrão mais certeiro.
E por que o governo deveria ligar para a geladeira que nós compramos? Eficiência energética deveria ser política pública de primeira grandeza, com um PAC, se preciso. Não tem PAC para tudo no Brasil? Estamos em um momento em que a tendência de médio prazo é de aumento no uso de fontes fósseis de combustíveis no país para o fornecimento de eletricidade. As novas grandes hidrelétricas vão se concentrar na Amazônia, onde é difícil conseguir licença ambiental e é demorado construir. O contrário do que ocorre com uma termelétrica a gás ou carvão. Ao mesmo tempo, é cada vez maior a pressão para que os grandes emergentes (do BRIC) tenham planos para controlar suas emissões de gases do efeito estufa. Uma forma no Brasil seria construindo menos termelétricas, o que seria possível com maior eficiência no uso da eletricidade.
A lógica vai mais além. Qual a maneira mais barata de reduzir emissões? Com eficiência no uso da energia - o custo, aliás, muitas vezes é menor do que a economia em energia. E é bom que o governo mostre que entende de "nudges". Ele vai precisar usar muitos para lidar com a fonte de emissões que deve garantir uma das maiores reduções e que, por isso, é chave para conter as mudanças climáticas: o desmatamento.
Você arriscaria dar sugestões de nudges para reduzir o desmatamento?