sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Quem paga?
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
9 - A salvação

É possível dizer que o segredo de um bom filme de aventura geralmente não está nas explosões, na edição dinâmica ou nas seqüências de luta bem coreografadas, mas sim na habilidade do protagonista em despertar a empatia do público. Uma vez cumprido esse item, um diretor talentoso consegue transformar até mesmo uma agulha enferrujada em uma ameaça capaz de deixar a platéia em polvorosa.
A falta dessa identificação entre o espectador e herói de “9 – A salvação” é provavelmente o único (e grande defeito) desse longa de animação dirigido e roteirizado pelo estreante Shane Acker. A história tem início quando 9, uma espécie de bonequinho vudu high tech, acorda em um prédio em ruínas, cercado por uma paisagem pós-apocalíptica. Aos poucos, ele encontrará uma pecinha eletrônica que não sabe bem para o que serve e se verá envolvido em uma missão que não sabe bem do que se trata, ao lado de outros bonecos semelhantes que não sabe bem quem são. Ao invés de instigar, todo esse mistério acaba por manter o público em uma postura quase indiferente, mesmo quando algum monstro aterrador surge em cena ou quando algum dos personagens principais morre.
Nada contra filmes em que a história é um quebra-cabeça que precisa ser montado aos poucos. “Amnésia” e “Oldboy” estão aí para mostrar que a fórmula funciona. Mas, nesses casos, o processo de construção do passado é a própria história. Em “9 – A salvação”, a relação entre os personagens carece de uma contextualização e, assim, perde sua força, prejudicando a narrativa. Por que 9 se importa tanto com 2, se ambos mal se conheceram? Por que 9 parte rumo à fábrica se mal sabe o que existe lá? Ao final, algumas respostar irão surgir e a história irá se fechar, mas aí já é tarde demais para que a platéia se importe.
Essa falha se torna ainda mais lamentável à medida que todos os outros aspectos do filme se revelam irretocáveis. O apuro técnico da direção de arte, incluindo o visual aterrador dos vilões, é acachapante. A edição de som revela um cuidado com os mínimos detalhes (perceba o ruído que o zíper da barriga de 9 faz ao balançar enquanto o personagem caminha). As texturas, a fotografia (posso falar em fotografia em uma animação?), tudo é impecável. E, mesmo assim, o filme não arrebata.
O resultado é um longa estranho, que não encontra seu público: é sinistro demais para levar as crianças, e sua história tem demasiadas lacunas para chegar a satisfazer os adultos. Mas o que mais incomoda é a sensação, ao sair do cinema, de que, apesar de tudo, estamos ávidos por voltar àquele universo, saber mais sobre sua mitologia e seus personagens. Mais uma prova de que todo filme brilhante, independente de seu gênero, tem por início um bom roteiro.
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“9 – A Salvação” é uma espécie de “spin off” de “9”, curta de animação que concorreu ao Oscar de 2006 em sua categoria. Também dirigido por Shane Acker, o filme é tão sinistro quanto seu sucessor. Confira abaixo.
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Se gostar de “9 – A salvação”, procure também: “Coraline” e “O estranho mundo de Jack”, ambos dirigidos por Henry Selick.
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Título: 9 – A salvação
Diretor: Shane Acker
Gênero: Animação
79 minutos
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Kindle: nunca vi nem comi, eu só ouço falar

Feche portas e janelas. Coloque o gato para dentro. O Kindle vem aí, e com força total. Saiu na Veja. Foi até capa da Época. E, em breve, estará na sua casa. Talvez seu filho já esteja usando um Kindle escondido e você nem saiba.
As editoras estão alvoroçadas. Também, não é para menos: o livro “O símbolo perdido”, de Dan Brown, teria vendido mais versões no formato digital do que no impresso. Especialistas dizem que é o começo do fim dos livros tal qual os conhecemos. Será que realmente há motivo para tanto alarde?
Difícil dizer, mas este blogueiro acha que não. Passado o hype, o mais provável é que tudo volte à normalidade e o Kindle seja apenas mais um formato disponível para os fãs de uma boa leitura. Talvez haja um boom nas vendas de livros eletrônicos tal qual ocorreu com o advento dos CDs nos anos 80 e 90: muitas pessoas correram para atualizar suas coleções de vinis, dando a impressão de que os lucros astronômicos eram para sempre e que o caminho da digitalização era irreversível. O que se viu foi o contrário: demorou, mas as vendas de CDs se estabilizaram e passaram a cair, e o vinil passou de item cult para melhor opção para aqueles que realmente curtem música.
A analogia é óbvia: da mesma forma que um fã de jazz não se contenta em ouvir John Coltrane em um arquivo de 128 kbps, da mesma forma que um fã de cinema não aceita assistir a “Crepúsculo dos Deuses” na tela do computador, é possível que um fã de James Joyce considere que a experiência de ler “Ulisses” numa telinha de cristal líquido não seja algo lá muito transcendental. “E o que explica o sucesso do livro de ‘O símbolo perdido’?”, perguntará o astuto leitor. Bom, pra mim sempre ficou claro que um fã de Dan Brown é capaz de se contentar com pouca coisa.
Isso porque o livro físico possui um fator “fetiche” que não pode ser desprezado. Eu sei, dizer isso já virou clichê, mas é verdade. Ao menos para mim é. Gosto do cheiro da folha dos livros. Tenho prazer em passear em livrarias, olhar capas. Às vezes me surpreendo admirando meus próprios exemplares.
Mas a idéia de ter um Kindle não me desagrada nem um pouco: já estou cansado de ser extorquido financeiramente pelas importadoras. Talvez, com um Kindle, possa finalmente realizar meu sonho de consumo e assinar a “The New Yorker” sem ter que pagar R$ 42 pela edição (nos EUA, cada exemplar sai por menos de um dólar). Além disso, em tempos de correção política, um Kindle possui um apelo inegavelmente ecológico: um livro de papel pode consumir uma árvore inteira, ou mais. Um livro digital consome apenas a matéria-prima com a qual é fabricado, e olhe lá.
Mas talvez a grande vantagem do livro eletrônico seja esta: ninguém vai ser cara de pau o bastante para pedir seu Kindle emprestado. Então dê adeus àquele seu amigo folgado que nunca devolve seus livros e que acredita que a orelha serve para marcar a página onde se parou a leitura. Por outro lado, esqueça também a idéia de levar aquela gatinha para ir até sua casa conhecer a sua biblioteca. A não ser que você se dê por feliz em expor sua coleção na tela do Kindle, com “Coltrane for lovers” tocando no último volume em seu iPod.
Seja incoerente
Acompanhe a sequência de matérias:
Revista Veja - 26 de agosto de 2009
Nazismo em todo lugar
Admirador da obra do italiano Primo Levi, escritor que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, o advogado americano Mike Godwin participava, em 1990, dos grupos de discussão da rede Usenet, espécie de antepassada da internet, e irritava-se com a leviandade com que os debatedores recorriam a analogias com o nazismo para desqualificar o argumento dos adversários. Foi então que ele cunhou a Lei de Godwin: "À medida que uma discussão on-line se alonga, a probabilidade de uma comparação envolvendo Hitler ou o nazismo se aproxima de 1". (Na linguagem matemática da probabilidade, 1 equivale a 100%.) Godwin fez uso paródico da matemática com o objetivo de alertar para a banalização do nazismo. E, embora a lei por si só não estabeleça juízos sobre o valor de comparações com o regime de Hitler, ela sugere, sim, que esse expediente desqualifica a discussão. Afinal, de que adianta ir em frente se uma das partes está disposta a vencer pelo autoritarismo, ou até mesmo pela violência? No Brasil e no mundo, os debates públicos não se cansam de corroborar a Lei de Godwin. (...) Como lembra o filósofo Roberto Romano, as palavras, como a moeda corrente, estão sujeitas à inflação. É comum que termos políticos percam o sentido e o valor pelo uso indiscriminado: fascista, neoliberal, republicano, cidadania. O nazismo, contudo, marca o paroxismo do Mal na história moderna. Foi um episódio extremo – e perde-se muito em vulgarizar o conceito.
Revista Veja - 23 de setembro de 2009
Ela é Megan. Não precisa ser meiga.
A atriz MEGAN FOX, 23 anos, é sexy, atrevida e estonteantemente parecida com Angelina Jolie. E complicada, reputação confirmada quando deu de falar mal de Michael Bay, diretor de Transformers, o filme que a lançou para o sucesso."É um Hitler", comparou, derrapando na Lei de Godwin das analogias nazistas. "Megan é burra como uma porta. Nem deve saber quem foi Hitler", diz uma carta de três anônimos dos bastidores das filmagens – Godwin, então... Também é difícil, mal-humorada e mal-educada: "Nunca agradeceu o duro que demos para esconder aquela tatuagem ridícula de Marilyn Monroe que tem no braço". A carta, publicada no site do diretor, foi retirada, e ele pôs panos quentes: "Não apoio. As declarações malucas de Megan são parte do seu charme maluquete".
Revista Veja - 14 de outubro de 2009
A SS de Hugo Chávez
O presidente Hugo Chávez deu um passo largo em seu projeto de implantar uma ditadura fascista na Venezuela. Na semana passada, a Assembléia Nacional, dominada por seus partidários, aprovou uma reforma da legislação sobre as Forças Armadas cujo objetivo foi equiparar as milícias de Chávez aos militares do país. Já no próximo ano, esses arruaceiros fardados terão salário fixo, armamento e poder de destruição comparáveis ao do Exército regular. A existência de uma tropa de choque à margem das instituições e diretamente ligada ao líder supremo é uma característica do fascismo. Adolf Hitler chegou a ter duas milícias distintas, cujas ações incluíam maltratar os judeus, dispersar comícios esquerdistas e empastelar jornais. Depois de assumir o poder, ele mandou destruir uma delas, a SA, por causa de desavenças dentro do partido nazista. A outra, a famigerada SS, recebeu armamento pesado e se tornou executora dos abomináveis crimes do regime. O italiano Benito Mussolini contava com os camisas-negras para torturar oposicionistas e acabar com greves. Foi marchando à frente de seus milicianos que ele chegou a Roma para tomar o poder. (...)
Então tá. Tipo, a gente pode, eles, não. Como diria minha avó, é o sujo falando do mal lavado.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Abril Vermelho

O promotor distrital adjunto Félix Chacaltana Saldivar é um funcionário simples, quase simplório. Executa suas tarefas com presteza, leva uma vida solitária e sonha com uma promoção que, acredita, poderia redimi-lo aos olhos da ex-mulher. Certamente se daria por satisfeito se tudo seguisse nessa toada, não fosse estar envolvido na investigação de uma série de assassinatos brutais que tem início em sua cidade natal, a pequena Ayacucho, localizada no sul do Peru.
Acreditando estar prestando um serviço aos seus superiores, Chacaltana passa a buscar pistas por conta própria. Todos os indícios levam à conclusão de que a autoria dos crimes se deve ao Sendero Luminoso, fato que chama rapidamente a atenção da polícia e dos militares, que passam a ver no protagonista de “Abril Vermelho” um adversário aos seus próprios interesses.
Não é difícil de entender o porquê. Estamos nas vésperas das eleições presidenciais de 2000. Alberto Fujimori concorre mais uma vez ao pleito, usando como uma de suas principais plataformas a diminuição da violência e a eliminação dos focos terroristas. Qualquer notícia capaz de trazer a insegurança de volta à população é vista com maus olhos por aqueles que estão no poder.
Em sua empreitada quixotesca, Chacaltana irá esbarrar na burocracia dos órgãos envolvidos e no desinteresse dos colegas, que, em busca da ascensão profissional, não temem confundir consentimento com eficiência. Descobrirá matizes, até então por ele desconhecidos, entre as noções de certo e errado. E atravessará um arco narrativo que envolve a perda de sua inocência, a opção ciente pelo cinismo e o enveredamento por um caminho irreversível.
Com um estilo fluído e uma fina ironia, o escritor Santiago Roncagliolo traça um retrato impiedoso da sociedade peruana, que busca por uma purificação que não está na justiça nem na religião. O rancor entre as classes é crescente: a etnia quíchua, que forma o grosso da parcela desfavorecida, é vista pelos personagens como um povo limitado, sem direitos e sem representatividade. A violência impregna todas as esferas e não é à toa que os televisores estão sempre mostrando pessoas se agredindo e disputas familiares no melhor estilo “Márcia”. Os mortos na busca pela paz já são por demais numerosos para se manterem enterrados, e clamam para que se dê um sentido ao seu sacrifício. O resultado é uma guerra na qual não se sabe mais quem é o mocinho e quem é o bandido, porque as forças armadas e os terroristas há muito se confundem nas intenções e nos procedimentos.
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Em 2003, realizei, ao lado de quatro amigos, um projeto antigo: fazer um mochilão pelo Peru e pela Bolívia. Conforme o planejado, conheci todos os cartões postais e fiquei maravilhado com as ruínas históricas e com as belezas naturais dos dois países. Mas também vivi uma experiência marcante que não constava de nenhum dos guias de turismo sobre a América Latina.
Um dia, ao descer de um ônibus em La Paz, percebi que havia esquecido minha carteira sobre o banco. Rapidamente apanhei outro veículo da mesma linha, sem saber que o próximo ponto era muito, mas muito distante. Acabei parando no meio das cadeias de montanhas que cercam a cidade, uma curiosa série de formações geológicas que se assemelham a um castelo de areia molhada ou a um prédio de Gaudí. É lá onde moram, em sua grande maioria, os quíchuas pacenhos, etnia cujos representantes se consideram orgulhosamente os descendentes diretos da civilização inca.
Quem já viajou pelos países andinos é capaz de reconhecer um quíchua sem maiores dificuldades. Os homens têm estatura baixa, traços indígenas e geralmente se vestem com calça preta e camisa social clara. As mulheres levam um inconfundível chapéu coco e sempre carregam às costas uma trouxa de pano, onde costumam levar objetos de uso pessoal ou crianças de colo com cabeças balouçantes. Presentes na maioria dos países andinos, os quíchuas em geral levam uma vida miserável, escassa em alegria e dignidade. Sua presença oscila entre o inconveniente e o invisível. Muitas vezes são vistos como criminosos, mal intencionados e vagabundos.
Até aquele momento, todo o contato que eu havia tido com os quíchuas se restringia às insistentes mulheres que, aos gritos de “señor, señor”, pediam esmolas e vendiam badulaques em frente aos pontos turísticos, carregando criancinhas que, com roupas típicas, tiravam fotos com os turistas em troca de alguns centavos. Logo, essa impressão iria mudar.
Ao entrar nas montanhas, fui surpreendido por uma efusão de vitalidade. O bairro estava em festa. Um campeonato de futebol feminino transcorria em um campinho de areia, concentrando a atenção de centenas de moradores, que gritavam e cantavam entusiasticamente. Ao invés de humildade e subserviência, os olhares ostentavam orgulho e alegria. Todas as ruas estavam enfeitadas por bandeirinhas e outros ornamentos típicos, que sacudiam em sintonia com as festividades. E, ao lado de um conjunto de música andina, um menino de cerca de quatro anos fazia air guitar com uma garrafa pet de 2 litros. Não quero parecer sentimental, mas, em toda minha vida, nunca vi uma criança extrair tanta diversão de um brinquedo.
Acabei não recuperando a carteira: ela já havia desaparecido. Mas o passeio acabou valendo muito mais do que as poucas notas que ela continha.
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No dia seguinte, ao voltar de uma partida de futebol entre Bolívar e The Strongest, o grande clássico boliviano, chamaram minha atenção as centenas de luzes elétricas que partiam das casas dos quíchuas escondidas nas montanhas. Aquela visão conferia à noite de La Paz um aspecto quase surreal. Senti que olhava para um céu estrelado, não só pelos inúmeros pontinhos luminosos, mas por saber que aquele era um brilho emanado do passado, de uma glória extinta, que não mais correspondia à realidade atual.
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O Sendero Luminoso surgiu e teve seu auge nos anos 80, durante o primeiro mandato do atual presidente Alan García. Era um grupo guerrilheiro de extrema esquerda, que se propunha a instaurar um regime comunista liderado por camponeses no Peru. Aos poucos, os valores se subverteram, a organização se transformou em um fim em si mesma e, como tantas outras do gênero, acabou prejudicando aqueles que afirmava defender. O grupo foi duramente reprimido por Fujimori durante o final dos anos 90 e, desde então, vem tentando se manter vivo, através de ações terroristas esporádicas.
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Em 2006, a população indígena boliviana acreditou ter em Evo Morales um representante de sua classe, alguém capaz de entender e fazer valer seus anseios e suas necessidades. Deu no que deu: medidas populistas, muita fanfarronice e pouco resultado prático. O país continua entre os mais pobres da América Latina e sua economia segue extremamente dependente da exportação de recursos naturais. A desigualdade só faz crescer.
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Comprei meu exemplar de “Abril Vermelho” nas Livrarias Curitiba no dia 03/10, em uma promoção insana, em que diversos livros da Alfaguara (incluindo “As Benevolentes”, que não costuma sair por menos de R$ 80) estavam sendo liquidados por R$ 9,90. Até este final de semana, a promoção continuava valendo. Corre lá e aproveita.
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Se gostar de “Abril Vermelho”, procure também: “A cada um o seu”, de Leonardo Sciascia, e “A hora azul”, de Alonso Cueto.
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Título: Abril Vermelho
Autor: Santiago Roncagliolo
Editora: Alfaguara
292 páginas