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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O mundo de Bolaño


Lá pelo terço final do romance “Soldados de Salamina”, de Javier Cercas, o escritor Roberto Bolaño surge como personagem para fazer uma curiosa intervenção no rumo da história. Quando o protagonista, que escreve um livro sobre a guerra civil espanhola e não consegue encontrar uma testemunha-chave do conflito, indaga de Bolaño o que deveria fazer, o autor chileno não hesita:

"- Você terá que inventar a entrevista com Miralles. É a única e a melhor forma de terminar o romance. (...) A realidade sempre nos trai; o melhor é não dar tempo a ela e traí-la antes. O Miralles real te decepcionaria; é melhor que o invente: seguramente, o Miralles inventado é mais real que o real."

Contar mais é estragar o final do livro, que merece ser lido. Mas a importância do trecho não está somente no fato de estabelecer a virada principal na trama de “Soldados...”, mas principalmente na forma como simboliza o atual papel de Bolaño como guru do que de melhor tem surgido na literatura em língua espanhola nos últimos anos.

Morto precocemente em 2003 após uma série de complicações hepáticas, Bolaño deixou cerca de 20 livros, entre romances, contos e poesia, nos quais, não é exagero dizer, conseguiu reinventar a literatura latino-americana sem negar sua tradição. Misturando o urbano com o pitoresco e buscando referências na cultura européia, o escritor chileno criou uma obra que consegue ser pop sem ser rasa, um pastiche de estilos e referências que leva finalmente a literatura latino-americana ao encontro do (pós-)pós-moderno e permite que ela escape, enfim, das amarras do realismo fantástico. Nesse sentido, ele se liberta, e liberta a própria literatura do nosso subcontinente, de um certo autocentrismo, partindo rumo a uma universalidade enriquecedora que, ao se espelhar em outras tradições, consegue definir melhor sua própria identidade.

Não que essa transgressão seja necessariamente pioneira. Mas o mérito de Bolaño é assimilar o antigo e o vanguardista, pôr tudo no liquidificador e assim criar o novo. Em “Os Detetives Selvagens”, considerado por muitos sua obra-prima, é possível encontrar um experimentalismo que costuma render comparações com Julio Cortázar, ainda que o estilo do chileno não possua o hermetismo do seu colega argentino. Isso porque, nos livros de Bolãno, há pluralidade de narradores, há metanarrativa, mas há sobretudo uma boa história, muitas vezes convencional, quase sempre romântica. Seus livros agarram o leitor e o levam por uma jornada apaixonante, em que a tragédia e o patético freqüentemente se confundem. Seus personagens são invariavelmente escritores, que se jogam no mundo em pequenas aventuras, à procura de algo que não sabem definir (de si próprios?).

Essa obsessão por protagonistas latinos, exilados e malditos reflete a própria biografia do autor. Após apoiar Salvador Allende e ser preso por Pinochet, Bolaño abandonou o Chile e correu o mundo. Morou no México, em El Salvador, na França e na Espanha. Foi vigia noturno, camelô, guerrilheiro, boêmio, vagabundo. Passou necessidade, escreveu para sobreviver, usou muitas drogas. Em recente matéria publicada pela Folha de S. Paulo, Sarah Pollack, professora da City University de Nova York, chega a definir a aura cool de Bolãno como “uma mistura dos beatniks com Rimbaud”.

A comparação do escritor chileno com o famoso movimento sócio-cultural-filosófico-literário surgido nos EUA durante os anos 50 não merece parar por aí. No já citado “Os Detetives Selvagens”, os dois protagonistas, Ulises Lima e Arturo Belano (Belano, Bolaño, pegou?) partem em um carro rumo ao deserto de Sonora, à procura de uma poetisa perdida, antes de saírem viajando pelos mais diversos países. É uma espécie de “On the road” da era da globalização, já que, aqui, a estrada é substituída pelo próprio mundo.

E, assim como no clássico beat de Kerouak, o que o leitor encontra em “Os Detetives Selvagens” é uma história envolvente, daquelas que despertam uma vontade imensa de se viver uma experiência parecida, repleta de personagens capazes de deixar saudades após se chegar à última página. É inegável que a intensidade e a riqueza da narrativa se devem à vivência de Bolaño, que realmente passou por grande parte das peripécias às quais submete seus personagens. Não é à toa que, a certa altura de “Soldados de Salamina”, ele comente com o protagonista:

“- Para escrever romances, não é preciso imaginação. Só memória. Os romances se escrevem combinando lembranças.”

Para nossa felicidade, lições como essas vêm sendo assimiladas e aplicadas pelos inúmeros escritores que, através de seu estilo ou temática, dão atualmente continuidade ao legado de Bolaño para a literatura do nosso subcontinente e, por que não, do resto do mundo.

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O melhor de Roberto Bolaño:
"Os Detetives Selvagens" – A obra-prima
"2666" – Os méritos e defeitos de “Detetives” elevados à 2666ª potência
"Noturnos do Chile" – Para os iniciados no universo do autor
"Putas Assassinas" e "Llamadas telefónicas": os melhores livros de contos

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Alguns dos escritores que foram influenciados por Bolaño, ou fizeram parte de seu círculo de amizades, ou exploram temática similar à do escritor chileno:

Enrique Vila-Matas (ESP)
Antonio di Benedetto (ARG)
Rodrigo Fresán (ARG)
Alan Pauls (ARG)
Alberto Fuguet (CHI)
Javier Cercas (ESP)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Abril Vermelho


O promotor distrital adjunto Félix Chacaltana Saldivar é um funcionário simples, quase simplório. Executa suas tarefas com presteza, leva uma vida solitária e sonha com uma promoção que, acredita, poderia redimi-lo aos olhos da ex-mulher. Certamente se daria por satisfeito se tudo seguisse nessa toada, não fosse estar envolvido na investigação de uma série de assassinatos brutais que tem início em sua cidade natal, a pequena Ayacucho, localizada no sul do Peru.

Acreditando estar prestando um serviço aos seus superiores, Chacaltana passa a buscar pistas por conta própria. Todos os indícios levam à conclusão de que a autoria dos crimes se deve ao Sendero Luminoso, fato que chama rapidamente a atenção da polícia e dos militares, que passam a ver no protagonista de “Abril Vermelho” um adversário aos seus próprios interesses.

Não é difícil de entender o porquê. Estamos nas vésperas das eleições presidenciais de 2000. Alberto Fujimori concorre mais uma vez ao pleito, usando como uma de suas principais plataformas a diminuição da violência e a eliminação dos focos terroristas. Qualquer notícia capaz de trazer a insegurança de volta à população é vista com maus olhos por aqueles que estão no poder.

Em sua empreitada quixotesca, Chacaltana irá esbarrar na burocracia dos órgãos envolvidos e no desinteresse dos colegas, que, em busca da ascensão profissional, não temem confundir consentimento com eficiência. Descobrirá matizes, até então por ele desconhecidos, entre as noções de certo e errado. E atravessará um arco narrativo que envolve a perda de sua inocência, a opção ciente pelo cinismo e o enveredamento por um caminho irreversível.

Com um estilo fluído e uma fina ironia, o escritor Santiago Roncagliolo traça um retrato impiedoso da sociedade peruana, que busca por uma purificação que não está na justiça nem na religião. O rancor entre as classes é crescente: a etnia quíchua, que forma o grosso da parcela desfavorecida, é vista pelos personagens como um povo limitado, sem direitos e sem representatividade. A violência impregna todas as esferas e não é à toa que os televisores estão sempre mostrando pessoas se agredindo e disputas familiares no melhor estilo “Márcia”. Os mortos na busca pela paz já são por demais numerosos para se manterem enterrados, e clamam para que se dê um sentido ao seu sacrifício. O resultado é uma guerra na qual não se sabe mais quem é o mocinho e quem é o bandido, porque as forças armadas e os terroristas há muito se confundem nas intenções e nos procedimentos.

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Em 2003, realizei, ao lado de quatro amigos, um projeto antigo: fazer um mochilão pelo Peru e pela Bolívia. Conforme o planejado, conheci todos os cartões postais e fiquei maravilhado com as ruínas históricas e com as belezas naturais dos dois países. Mas também vivi uma experiência marcante que não constava de nenhum dos guias de turismo sobre a América Latina.

Um dia, ao descer de um ônibus em La Paz, percebi que havia esquecido minha carteira sobre o banco. Rapidamente apanhei outro veículo da mesma linha, sem saber que o próximo ponto era muito, mas muito distante. Acabei parando no meio das cadeias de montanhas que cercam a cidade, uma curiosa série de formações geológicas que se assemelham a um castelo de areia molhada ou a um prédio de Gaudí. É lá onde moram, em sua grande maioria, os quíchuas pacenhos, etnia cujos representantes se consideram orgulhosamente os descendentes diretos da civilização inca.

Quem já viajou pelos países andinos é capaz de reconhecer um quíchua sem maiores dificuldades. Os homens têm estatura baixa, traços indígenas e geralmente se vestem com calça preta e camisa social clara. As mulheres levam um inconfundível chapéu coco e sempre carregam às costas uma trouxa de pano, onde costumam levar objetos de uso pessoal ou crianças de colo com cabeças balouçantes. Presentes na maioria dos países andinos, os quíchuas em geral levam uma vida miserável, escassa em alegria e dignidade. Sua presença oscila entre o inconveniente e o invisível. Muitas vezes são vistos como criminosos, mal intencionados e vagabundos.

Até aquele momento, todo o contato que eu havia tido com os quíchuas se restringia às insistentes mulheres que, aos gritos de “señor, señor”, pediam esmolas e vendiam badulaques em frente aos pontos turísticos, carregando criancinhas que, com roupas típicas, tiravam fotos com os turistas em troca de alguns centavos. Logo, essa impressão iria mudar.

Ao entrar nas montanhas, fui surpreendido por uma efusão de vitalidade. O bairro estava em festa. Um campeonato de futebol feminino transcorria em um campinho de areia, concentrando a atenção de centenas de moradores, que gritavam e cantavam entusiasticamente. Ao invés de humildade e subserviência, os olhares ostentavam orgulho e alegria. Todas as ruas estavam enfeitadas por bandeirinhas e outros ornamentos típicos, que sacudiam em sintonia com as festividades. E, ao lado de um conjunto de música andina, um menino de cerca de quatro anos fazia air guitar com uma garrafa pet de 2 litros. Não quero parecer sentimental, mas, em toda minha vida, nunca vi uma criança extrair tanta diversão de um brinquedo.

Acabei não recuperando a carteira: ela já havia desaparecido. Mas o passeio acabou valendo muito mais do que as poucas notas que ela continha.

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No dia seguinte, ao voltar de uma partida de futebol entre Bolívar e The Strongest, o grande clássico boliviano, chamaram minha atenção as centenas de luzes elétricas que partiam das casas dos quíchuas escondidas nas montanhas. Aquela visão conferia à noite de La Paz um aspecto quase surreal. Senti que olhava para um céu estrelado, não só pelos inúmeros pontinhos luminosos, mas por saber que aquele era um brilho emanado do passado, de uma glória extinta, que não mais correspondia à realidade atual.

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O Sendero Luminoso surgiu e teve seu auge nos anos 80, durante o primeiro mandato do atual presidente Alan García. Era um grupo guerrilheiro de extrema esquerda, que se propunha a instaurar um regime comunista liderado por camponeses no Peru. Aos poucos, os valores se subverteram, a organização se transformou em um fim em si mesma e, como tantas outras do gênero, acabou prejudicando aqueles que afirmava defender. O grupo foi duramente reprimido por Fujimori durante o final dos anos 90 e, desde então, vem tentando se manter vivo, através de ações terroristas esporádicas.

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Em 2006, a população indígena boliviana acreditou ter em Evo Morales um representante de sua classe, alguém capaz de entender e fazer valer seus anseios e suas necessidades. Deu no que deu: medidas populistas, muita fanfarronice e pouco resultado prático. O país continua entre os mais pobres da América Latina e sua economia segue extremamente dependente da exportação de recursos naturais. A desigualdade só faz crescer.

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Comprei meu exemplar de “Abril Vermelho” nas Livrarias Curitiba no dia 03/10, em uma promoção insana, em que diversos livros da Alfaguara (incluindo “As Benevolentes”, que não costuma sair por menos de R$ 80) estavam sendo liquidados por R$ 9,90. Até este final de semana, a promoção continuava valendo. Corre lá e aproveita.

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Se gostar de “Abril Vermelho”, procure também: “A cada um o seu”, de Leonardo Sciascia, e “A hora azul”, de Alonso Cueto.

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Título: Abril Vermelho
Autor: Santiago Roncagliolo
Editora: Alfaguara
292 páginas