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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Filmes e livros

Comentários rápidos sobre filmes e livros que assisti e li recentemente.





O grupo Baader Meinhof
“O que é isso, companheiro?” com passaporte alemão. O diretor Uli Edel abusa na ação e na violência para contar a história do grupo guerrilheiro alemão que apavorou a RFA nos anos 70. A imprensa brasileira caiu em cima, talvez pelo fato do filme dar voz a uma organização terrorista de esquerda. Mas mesmo que a visão seja um pouco romanceada, a impressão que fica é de que sobrava hormônio e faltava neurônio. Bom mesmo deveria ser morar do outro lado do muro.

Direção: Uli Edel
Com: Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu, Johanna Wokalek
Gênero: Drama
150 min



Trama internacional
Policial idealista tenta provar o envolvimento de banco multinacional em guerras e assassinatos. Direção estilosa, sem sofrer de complexo de atenção. Ainda que force a barra nas coincidências, o roteiro surpreende, com um discurso mais à esquerda do que seria de se esperar de um filme produzido por um grande estúdio como a Sony Pictures (o que talvez acabe invalidando suas idéias pela hipocrisia). E a cena do tiroteio no Guggeinhem já nasceu clássica.

Direção: Tom Tykwer
Com: Clive Owen Naomi Watts, Armin Mueller-Stahl
Gênero: Suspense
118 min




O príncipe maldito
Fruto de uma impressionante pesquisa histórica, o livro revela detalhes dos bastidores do poder e da vida privada da família real, focando na figura trágica de Pedro Augusto, neto de D. Pedro II e suposto favorito para a linha sucessória, que mais tarde acabaria internado em um hospício. O único porém fica por conta do estilo afetado da autora que, ao tentar romancear o relato, acaba assumindo o papel de narrador onisciente e se põe a projetar o fluxo de pensamentos dos personagens. Não é todo mundo que nasce Clarice Lispector.

Autora: Mary Del Priore
Editora: Objetiva
296 páginas




D. Pedro II
Com uma prosa que consegue ser elegante sem se perder em floreios, José Murilo de Carvalho traça um retrato benevolente de D. Pedro II, talvez uma das figuras mais subestimadas de nossa historiografia. Ao percorrer as páginas deste livro, o leitor fica sabendo que o imperador respeitava a liberdade de imprensa (“A imprensa se combate com a própria imprensa”), pagava suas viagens internacionais do seu próprio bolso, criticava a soberba da classe política e via na educação o caminho para o progresso. Deveria ser leitura obrigatória em Brasília.

Autor: José Murilo de Carvalho
Editora: Companhia das Letras
288 páginas

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Filmes

Comentários rápidos sobre filmes vistos recentemente.

Substitutos
Estrelado por Bruce Willis, “Substitutos” parte de uma premissa interessante: o que aconteceria se o Second Life saísse do computador e ganhasse a realidade? Infelizmente, as inúmeras questões éticas e filosóficas que a trama poderia levantar ficam, em grande parte, no papel (ou na imaginação do espectador ao sair do cinema). As cenas de ação e os efeitos especiais são apenas corretos. Se for visto como ficção científica, o longa pode decepcionar, mas se for encarado como um policial, está bem acima da média.

Direção: Jonathan Mostow
Com: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike
Gênero: Ficção científica, policial
104 min.

Anticristo
No filme-polêmica de Lars Von Trier, você irá ver cenas de sexo explícito, de tortura e de mutilação auto-imposta. Mas, passado o choque inicial, o que sobra é uma história meia boca sobre a maldade intrínseca do homem e sobre o fracasso em se tentar impor uma lógica à natureza (como avisa a raposa falante, “o caos reina”). Visualmente, o filme tem seus atrativos, mas nada que Von Trier já não tenha feito antes sob a estética do Dogma. Talvez o único destaque fique por conta da entrega total de Gainsbourg. Quem diria que filmes como “O albergue” e “Jogos mortais” teriam um efeito benéfico: ao amortecerem nossos sentidos contra o bizarro, nos tornam enfim capazes de enxergar os defeitos de obras como esta.

Direção: Lars Von Trier
Com: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg
Gênero: Terror, drama
109 min.

Te amarei para sempre
Como contar uma história de amor sem cair na mesmice? Usando elementos fantásticos. Essa é a resposta encontrada por alguns dos poucos filmes românticos originais lançados recentemente nos EUA, como “A casa no lago” e este “Te amarei para sempre”. Aqui, o que dá o tempero de ineditismo é o protagonista capaz de viajar no tempo. Ainda que demore um pouco para engrenar, a história funciona e envolve, além de conseguir tocar, com leveza e bom humor, os paradoxos que o tema envolve e os efeitos que ele teria sobre a vida de dois amantes. Ótima surpresa.

Direção: Robert Schwentke
Com: Rachel McAdams e Eric Bana
Gênero: Romance, ficção científica
107 min.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Maratona AFI - #100 - A canção da vitória


Seja sincero: o que você faria se alguém te obrigasse a assistir a um clássico em preto e branco dos anos 40? Talvez até topasse, certo? Mas antes de responder saiba que se trata de um musical. E não é só: dizem por aí que a história é uma tremenda patriotada americana, repleta de bandeiras, listras e estrelinhas.

Bom, essa era mais ou menos a sensação que eu tinha ao colocar o disco de “A canção da vitória” pra rodar no meu aparelho de DVD. Talvez você fique ainda mais desconcertado ao saber que a pessoa que me obrigou a passar por essa experiência era ninguém mais, ninguém menos, do que eu próprio, Leonardo, 30 anos, redator em crise.

Antes que você saia me acusando de sadomasoquismo ou resmungue algo do tipo “Eu sempre achei esse cara meio estranho mesmo”, vou tentar explicar como fui parar no meio dessa situação insólita. Para isso, terei que voltar um pouco no tempo.

Em 1997, o American Film Institute, organização dedicada “ao reconhecimento e à celebração da excelência na arte” do cinema, elegeu o que seriam os “100 melhores filmes americanos de todos os tempos”. Como toda lista que se preze, a relação foi criticada, detonada e desprezada por especialistas do mundo todo. De qualquer forma, acabou se tornando referência para diversos cinéfilos, incluindo aí este que vos escreve, e ganhou inclusive uma versão atualizada 10 anos depois.

Estamos de volta a 2009. Este intrépido blogueiro, em uma tarde de pouca inspiração, decide que seria por bem assistir, ou reassistir, a cada um dos 100 filmes da lista original da AFI e comentá-los aqui no Newsper porque:

a) Achou que, na pior das hipóteses, seria um bom aprendizado sobre a sétima arte;
b) Adora completar uma lista;
c) Não tem nada melhor para fazer.

Tomada a decisão mais difícil, qual seja, a de realizar a viagem, faltava apenas definir qual seria a rota. Decidi então começar pelo 100º lugar, que se trata justamente de “A canção da vitória”, e a partir daí ir assistindo filme por filme até chegar ao primeiro colocado.

Bom, agora você entende.

Mas antes de dar a minha opinião geral sobre a experiência, um pouquinho de história. “A canção da vitória” (ou “Yankee Doodle Dandy” no original) foi lançado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial. O filme retrata a vida de George M. Cohan, um dos maiores astros dos musicais americanos do início do século XX. Tudo bem que, no filme, a vida do sujeito seja um pouco romanceada (na verdade, muito romanceada). Cohan é retratado como um tipo simpático, apoiado por sua família até mesmo nas decisões mais difíceis, casado com uma mulher submissa e condescendente, o que, como é fácil de descobrir na Internet, não corresponde necessariamente à verdade.

Responsável por vários sucessos da Broadway, Cohan tinha na dramatização de sua biografia um potencial êxito de público. Por isso, a Warner não quis arriscar e escalou Michael Curtiz para a direção. Talvez você não esteja ligando o nome à pessoa: Curtiz é o homem por trás de “Casablanca”, também de 1942, e de mais 160 filmes que o consagraram como um dos mais versáteis talentos da Warner. Na época, o estúdio era famoso por seus filmes de gangsters, que tinham nos atores Edward G. Robinson e James Cagney dois de seus maiores ícones. Pois é justamente Cagney, que já havia sido dirigido por Curtiz no filme “Anjos de cara suja”, quem interpreta o protagonista de “A canção da vitória”. Conhecido por seus tipos durões, foi no papel de Cohan que o ator pôde finalmente exibir seus dotes de dançarino e cantor, em uma atuação que seria recompensada com o Oscar daquele ano.

Bogart e Cagney em Anjos de cara suja: "Isto é por trocar a Ingrid Bergman por aquele capitão bigodudo!"

Repleto de números musicais com temas tipicamente americanos, o longa é assumidamente patriótico. Também pudera: durante a guerra, o cinema passou a ser visto como uma forma de levantar o moral da nação e fazer propaganda dos ideais democráticos. Consta que, já em 1942, 1/3 dos filmes saídos de Hollywood tinham como cenário os campos de batalha. O público correspondeu comparecendo às salas de cinema em massa e, ao final do conflito, as bilheterias já se comparavam às do período anterior à Grande Depressão.

A história de “A canção da vitória” não tem muito segredo: ao ser chamado para conversar com o então presidente Franklin Roosevelt, Cohan tem a oportunidade de contar a sua vida, explicando como saiu de uma família de pequenos artistas para se tornar uma das grandes figuras da Broadway. Os números musicais, portanto, fazem parte do contexto do filme. Ou seja, nada daquelas cenas em que os personagens começam a cantar no meio de um diálogo, acompanhados por desconhecidos que, sabe-se lá como, também conhecem a letra da música.

Até o Sarney faz a sua pontinha.

A essa altura talvez você já esteja se perguntando, “Mas, afinal, vale a pena o programa?”, ao que eu prontamente respondo, “Sim, meu pequeno gafanhoto”. Talvez porque, e agora tire as crianças da sala porque vou fazer uma revelação bombástica, eu gosto de musicais. E, caso você tenha preconceito contra o gênero, eu recomendo: experimente assistir a um musical, nem que seja apenas uma vez na vida. De preferência a algum clássico, como “Dançando na chuva”. Você vai se surpreender, porque muitas das canções e coreografias são realmente empolgantes. Se ainda tiver alguma pulga atrás da sua orelha, pense: oras bolas, o tal do Cohan não deve ter feito sucesso por acaso. Certamente há de haver algo de interessante em suas músicas.

Além disso, você há de convir que um diretor como Curtiz, com tantos filmes nas costas, deve saber o que está fazendo. A história tem ritmo, James Cagney é realmente carismático e, ainda que algumas situações sejam um pouco previsíveis e esquemáticas, há alguns diálogos realmente bem sacados.

De forma que “A canção da vitória” acabou se revelando, no final das contas, um filme bastante simpático. Tudo bem que você provavelmente terá vontade de dar uma surra na versão mirim do protagonista ao menos umas cinco vezes durante a primeira meia hora de projeção. Mas, se baixar suas defesas, eu garanto que, assim como eu, você pode acabar se divertindo.

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Título: A canção da vitória (Yankee Doodle Dandy)
Direção: Michael Curtiz
Com: James Cagney, Richard Whorf, Joan Leslie
Gênero: Musical
Ano: 1942
126 min.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O desinformante!


Mark Whitacre é um executivo aparentemente simpático, quase bonachão, que trabalha na ADM, uma multinacional da área de alimentos. Um dia, ao ser designado para detectar uma falha na linha de produção de sua empresa, Whitacre rapidamente levanta a possibilidade de espionagem industrial. O fato chama a atenção do FBI, que, ao pressionar o protagonista em busca de mais informações, acaba tomando conhecimento da existência de um grande cartel internacional, supostamente liderado por diretores da própria ADM, formado por empresas cujo objetivo é controlar os preços de seus produtos no mercado mundial.

Essa é a história verídica de “O desinformante!”, longa dirigido por Steven Sordebergh, que seria apenas mais um filme sobre os bastidores escusos das grandes corporações não fosse por um detalhe: a questionável idoneidade do próprio Whitacre. Seria ele realmente uma fonte confiável? Será que Whitacre não passaria de um mitômano ou teria ele um interesse especial nos resultados das investigações?

Grande parte do mérito por tornar o protagonista de “O desinformante!" tão interessante está na atuação de Matt Damon. O ator, que engordou diversos quilos para encarnar Whitacre, confere ao personagem uma série de pequenos trejeitos, que contribuem para fazer do executivo uma figura ainda mais intrigante. Os fãs de Sordebergh também não irão se decepcionar, já que “O desinformante!” carrega todas as características que marcaram as outras comédias do diretor: o clima setentista, a fina ironia, a trilha sonora engraçadinha, os diálogos espertos, o humor muitas vezes involuntário dos personagens.

Entretanto, ainda que traga um ar de novidade aos filmes de espionagem corporativa, “O desinformante!” acaba padecendo do mesmo defeito de outros exemplares recentes do gênero, como “Duplicidade” e “Conduta de risco”: o de despertar aquela incômoda sensação de parecer mais longo do que realmente é. Sua história, rocambolesca, aos poucos vai se tornando repetitiva e previsível. Para cada mentira descoberta pelo FBI, Whitacre é capaz de inventar uma nova, mais escabrosa, que por sua vez será novamente descoberta e assim por diante.

Felizmente, é sobre a misteriosa figura de Whitacre, e não sobre a investigação em si, que Sordebergh se debruça com mais afinco. Repleta de contradições e idiossincrasias, é a personalidade do protagonista o elemento que confere força ao filme, garantindo a funcionalidade da história e fazendo com que o espectador saia do cinema satisfeito com o que viu.

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“O desinformante!” foi distribuído no Brasil com legendas extremamente finas, que freqüentemente desaparecem em meio à fotografia superexposta do filme. Para piorar, assisti ao longa no Unibanco Arteplex (cinema do qual gosto bastante, pelos títulos e preços), cuja cópia estava com um som horroroso, repleto de chiados. Fica, portanto, a dica: vá a outro cinema ou espere o DVD.

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Se gostar de “O desinformante!”, procure também: “Duplicidade”, de Tony Gilroy, e “Queime depois de ler”, de Ethan e Joel Coen.

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Título: O desinformante!
Diretor: Steven Sordebergh
Gênero: comédia
108 minutos

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Distrito 9


A essa altura, você já deve estar careca de ouvir falar sobre “Distrito 9”, o filme-sensação da temporada. Sabe que a história gira em torno de um grupo de ETs refugiados em Johannesburgo, sabe que se trata de uma metáfora do apartheid e sabe que o longa foi produzido por Peter Jackson, o diretor de “Senhor dos Anéis”.

O longa gerou um certo burburinho na imprensa especializada, não só por sua criativa campanha de marketing (cartazes foram espalhados pelos EUA com a imagem de um ET acompanhada por um número de disque-denúncia) ou por seu faturamento de US$ 163 milhões ao redor do mundo (custou “apenas” US$ 30 milhões), mas por, supostamente, trazer um ar de renovação aos filmes de ficção-científica.

Infelizmente, ao final de seus 112 minutos, chega-se facilmente à conclusão de que o filme tem pouco de inovador. O começo até promete: os personagens e a trama básica são apresentados na forma de um documentário, com todas as características típicas do gênero: câmera tremida, depoimentos contraditórios, imagens desfocadas. Os efeitos especiais são fantásticos, principalmente quando se leva em consideração o orçamento "modesto" da produção. As analogias com a realidade dos negros na África do Sul (e com qualquer outro povo que sofra com alguma forma de repressão e discriminação) durante o infame regime segregacionista são criativas e pertinentes. O elemento gore é usado de forma interessante: em um filme sobre genocídio, é muito mais tolerável assistir a alienígenas explodindo do que humanos. Dessa forma, o longa consegue a façanha de manter o foco sobre suas questões principais sem se tornar uma experiência apelativa e, ao mesmo tempo, sem perder a força de sua temática, pois não é obrigado a fazer concessões para se tornar mais palatável.

O grande problema de “Distrito 9” é que as críticas sociais rapidamente dão lugar a uma trama banal de ação, com todos os defeitos do gênero: muito barulho, tiros e explosões inconseqüentes por todo lado. O que antes era uma mistura de “Cidade de Deus” com “Guerra dos Mundos” acaba virando uma espécie de “Transformers” na favela. O filme entra então em um terreno delicado: ao usar a temática da intolerância para construir um blockbuster, “Distrito 9” se aproxima exatamente do processo de espetacularização da tragédia que pretendia criticar.

Mas, enfim, talvez a maior prova de que “Distrito 9” não passa de mais do mesmo seja esta: o filme termina em aberto, e uma continuação já está sendo discutida. Acaba de nascer mais uma franquia. Sinal de que, por mais que humanos sejam substituídos por alienígenas, a história continua sempre a mesma.

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“Distrito 9” é uma adaptação do curta “Alive in Joburg”, também dirigido por Neill Blomkamp, e que você pode conferir abaixo:





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Título: Distrito 9
Diretor: Neill Blomkamp
Gênero: Ação
112 minutos

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Almoço em agosto


Na tradicional fórmula hollywoodiana, um personagem feminino idoso tem duas funções possíveis: ou é a mentora taradinha “pra frentex”, ou é a megera de quem o protagonista precisa se livrar para chegar ao seu objetivo final. Dessa forma, podem causar um certo estranhamento na platéia as velhinhas de “Almoço em agosto”, comédia italiana escrita, dirigida e protagonizada por Gianni di Gregorio.

A história é simples: Gianni, um homem de meia-idade que mora com a mãe, aceita hospedar em seu apartamento, durante um feriado, três senhoras de idade, em troca do perdão de suas dívidas. E isso é tudo, porque “Almoço em Agosto” não tem reviravoltas incríveis, não tem estereótipos fáceis e, pode ter certeza, essa turminha da pesada não vai se meter em altas confusões.

Na verdade, a graça do longa surge do olhar apurado de Gianni di Gregorio para captar características universais da terceira idade. É impossível, para o público, não reconhecer uma avó ou aquela tia velhinha nos gestos, nas birras, nas manias ou na morosidade da conversa das quatro coroas (os sinônimos estão acabando) sobre as quais se debruça o filme.

O riso, então, surge tímido e vai ganhando força à medida que o espectador se identifica com as agruras do personagem principal. A iluminação e as atuações naturalistas contribuem para uma sensação de realidade: é como se nos sentíssemos em casa, ou se estivéssemos espiando os excertos do dia-a-dia de um vizinho, em um prazer quase voyeurístico.

“Almoço em agosto” é um filme saboroso, daqueles que deixam a platéia com um sorrisão no rosto na saída do cinema. Não vai fazer você chorar de rir, mas, convenhamos, é uma alternativa melhor que a última comédia romântica da Cameron Diaz e do Ashton Kutcher.

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Se gostar de “Almoço em agosto”, procure também: “O filho da noiva”, de Juan José Campanella e “Ninho vazio”, de Daniel Burman.

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Título: Almoço em agosto
Diretor: Gianni di Gregorio
Gênero: comédia
75 minutos

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

9 - A salvação



É possível dizer que o segredo de um bom filme de aventura geralmente não está nas explosões, na edição dinâmica ou nas seqüências de luta bem coreografadas, mas sim na habilidade do protagonista em despertar a empatia do público. Uma vez cumprido esse item, um diretor talentoso consegue transformar até mesmo uma agulha enferrujada em uma ameaça capaz de deixar a platéia em polvorosa.

A falta dessa identificação entre o espectador e herói de “9 – A salvação” é provavelmente o único (e grande defeito) desse longa de animação dirigido e roteirizado pelo estreante Shane Acker. A história tem início quando 9, uma espécie de bonequinho vudu high tech, acorda em um prédio em ruínas, cercado por uma paisagem pós-apocalíptica. Aos poucos, ele encontrará uma pecinha eletrônica que não sabe bem para o que serve e se verá envolvido em uma missão que não sabe bem do que se trata, ao lado de outros bonecos semelhantes que não sabe bem quem são. Ao invés de instigar, todo esse mistério acaba por manter o público em uma postura quase indiferente, mesmo quando algum monstro aterrador surge em cena ou quando algum dos personagens principais morre.

Nada contra filmes em que a história é um quebra-cabeça que precisa ser montado aos poucos. “Amnésia” e “Oldboy” estão aí para mostrar que a fórmula funciona. Mas, nesses casos, o processo de construção do passado é a própria história. Em “9 – A salvação”, a relação entre os personagens carece de uma contextualização e, assim, perde sua força, prejudicando a narrativa. Por que 9 se importa tanto com 2, se ambos mal se conheceram? Por que 9 parte rumo à fábrica se mal sabe o que existe lá? Ao final, algumas respostar irão surgir e a história irá se fechar, mas aí já é tarde demais para que a platéia se importe.

Essa falha se torna ainda mais lamentável à medida que todos os outros aspectos do filme se revelam irretocáveis. O apuro técnico da direção de arte, incluindo o visual aterrador dos vilões, é acachapante. A edição de som revela um cuidado com os mínimos detalhes (perceba o ruído que o zíper da barriga de 9 faz ao balançar enquanto o personagem caminha). As texturas, a fotografia (posso falar em fotografia em uma animação?), tudo é impecável. E, mesmo assim, o filme não arrebata.

O resultado é um longa estranho, que não encontra seu público: é sinistro demais para levar as crianças, e sua história tem demasiadas lacunas para chegar a satisfazer os adultos. Mas o que mais incomoda é a sensação, ao sair do cinema, de que, apesar de tudo, estamos ávidos por voltar àquele universo, saber mais sobre sua mitologia e seus personagens. Mais uma prova de que todo filme brilhante, independente de seu gênero, tem por início um bom roteiro.

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“9 – A Salvação” é uma espécie de “spin off” de “9”, curta de animação que concorreu ao Oscar de 2006 em sua categoria. Também dirigido por Shane Acker, o filme é tão sinistro quanto seu sucessor. Confira abaixo.



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Se gostar de “9 – A salvação”, procure também: “Coraline” e “O estranho mundo de Jack”, ambos dirigidos por Henry Selick.

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Título: 9 – A salvação
Diretor: Shane Acker
Gênero: Animação
79 minutos