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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

As medidas do sucesso


Curioso como o conceito de sucesso no mundo esportivo se altera profundamente quando comparado com o dito "mundo real", principalmente para os brasileiros. O caso do piloto Rubens Barrichello é exemplar.

Há nada menos do que 17 anos, Rubinho integra o seletíssimo grupo de pilotos da Fórmula 1, considerada a elite do automobilismo mundial. É o recordista de grandes prêmios disputados na categoria, tendo participado de 288 provas, sendo que venceu onze delas e pontuou em outras 196. Foi duas vezes vice-campeão do mundo e é o quarto piloto que mais subiu ao pódio na F-1, terminando entre os três primeiros em 68 corridas. Para 2010, já tem contrato assinado com a Willians, uma das equipes que, mesmo passando por um momento de instabilidade, segue como uma das mais tradicionais da F-1. Mesmo assim, é provavelmente o esportista brasileiro mais achincalhado da história.

De fato, Rubinho parece sofrer com uma sina ou um péssimo azar que fazem com que certas coisas só aconteçam com ele. Mesmo assim, seus resultados são significativos, longe de serem desprezíveis. Mas o que chama mesmo a atenção é que até o salário do piloto, inatingível para 99,9% dos brasileiros, vira motivo de piada.

Em matéria recente para a TV Lance, que o leitor pode acompanhar clicando aqui, o comentarista satiriza o fato de Rubinho ter "apenas" o 16º maior salário da F-1. Isso mesmo informando que por "apenas", entenda-se U$ 1 milhão ao ano (ou cerca de R$ 1,7 milhão). Se essa foi a média dos salários de Rubinho durante sua carreira na F-1, é só multiplicar por 17 para saber que o piloto, aos 37 anos, já acumulou uma fortuna de mais de R$ 20 milhões. Isso só de salário, aquele que sua equipe lhe paga todo mês – sem contar as premiações por pódios ou corridas vencidas e o faturamento com cotas de patrocínio. Nada mal...

Agora imagine que Rubinho, ao invés de piloto, fosse um executivo brasileiro que trabalhasse em uma multinacional de automóveis e que, durante sua carreira, chegasse à vice-presidência mundial dessa empresa. Independente do salário que recebesse, seria difícil encontrar alguém que não o considerasse um executivo de sucesso e, principalmente, uma pessoa bem sucedida.

Aí é que, ao menos para os brasileiros, existe a ruptura entre o conceito de sucesso no mundo esportivo e na “vida real”. Nos esportes, mesmo aqueles de alto rendimento, com alto grau de competitividade, quase nada além do primeiro lugar é admissível. O segundo colocado é apenas o primeiro dos últimos. O que interessa é vencer. Caso contrário, restam a descrença as piadas, relegando o ser humano a último plano.

E é isso que vem atormentando Rubinho em boa parte de seus 17 anos na F-1. Tamanha aporrinhação acabou irritando o piloto, que ao menos aparentemente, sempre lidou bem com as brincadeiras. No domingo passado, após a última prova da temporada 2009, em que terminou na quarta colocação, o piloto foi à forra no Twitter, onde tem mais de 280 mil seguidores. “Na vida temos que encarar as dificuldades com otimismo. Trabalhar duro com sorriso na cara esperando sempre pelo melhor... Pra vc que não tem o que fazer e quer tirar um sarro do resultado de hj dê uma olhadinha na sua vida e veja se é feliz como eu sou”, disparou.

Para bom entendedor, dois simples tweets bastam...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Rio não é Londres


Pegou mal, muito mal mesmo, na imprensa internacional o mais recente episódio da guerra nos morros do Rio de Janeiro, poucos dias depois de a cidade ter sido escolhida como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Jornais de todo o mundo destacaram os tiroteios que mataram 21 pessoas no último fim de semana, três delas após a queda de um helicóptero da polícia, abatido a tiros por traficantes.
As cenas, que mais parecem de um filme de Hollywood, impressionaram correspondentes estrangeiros e repercutiram especialmente em jornais de países envolvidos diretamente na disputa pela sede da dita Olimpíada, como Estados Unidos e Espanha.
O Chicago Tribune, principal jornal de uma das três cidades superadas pelo Rio na eleição final do Comitê Olímpico Internacional (COI), destacou as promessas feitas pelas autoridades brasileiras de que haverá segurança durante a Olimpíada, “apesar das guerras de gangues”. O veículo ressaltou ainda que os tiroteios no Morro dos Macacos ("Monkey Hill"), aconteceram a cerca de cinco milhas de umas das áreas que receberão competições daqui a menos de sete anos.
Na Espanha, cuja capital Madri foi a última cidade derrotada pelo Rio na disputa por 2016, os principais jornais, independente da linha editorial, também deram espaço aos lamentáveis incidentes do fim de semana. O El País, jornal de linha esquerdista, em matéria do correspondente Francho Barón, afirmou que o episódio mostra que as “facções criminosas, quando se propõem a isso, seguem tendo a capacidade de semear o pânico na cidade mais turística do país.”
O jornal deu destaque ainda ao relatório apresentado na última quinta pela ONG Viva Rio, que denunciou o precário controle sobre as armas de fogo que circulam pelo Brasil. O correspondente do El País afirma que isso outorga um poder de fogo aos grupos delinquentes que preocupa as autoridades cariocas principalmente por conta dos Jogos Olímpicos de 2016.
O El Mundo, publicação de direita, destacou as afirmações de Lula, que promete “limpar a sujeira” do Rio de Janeiro até 2016.
Mas além das críticas, veladas ou descaradas, contra a escolha da capital fluminense para receber a Olimpíada, os jornais estrangeiros destacaram um contraponto: as declarações do inglês Craig Reedie, membro do comitê executivo do COI. Ele comparou a situação vivida pelo Rio neste fim de semana com aquela passada por Londres em 2005, pouco antes de ter sido escolhida sede dos Jogos de 2012.
Há pouco mais de quatro anos, a capital inglesa sofreu quatro atentados terroristas simultâneos em ônibus e estações de metrô, que deixaram 52 mortos. Segundo Reedie, mesmo com esse histórico, hoje ninguém fala em evitar a Olimpíada em Londres por razões de segurança. “Lamento profundamente o que aconteceu no Rio, mas devo dizer que parece insignificante comparado com o que ocorreu em Londres em 2005”, disse o dirigente do COI.
Com todo respeito ao senhor Reedie e, principalmente, às vítimas do atentado de 2005, a situação das duas cidades não tem nada de parecido. É claro que uma ação terrorista, imprevisível e causando dezenas de mortes de uma única vez, aparentemente choca muito mais do que uma guerra entre bandidos e policiais. Mas no caso de Londres, trata-se de um episódio isolado.
O problema no Rio é muito mais grave. Chega a ser crônico. Mesmo sem acesso às estatísticas, é possível afirmar categoricamente que, apenas nestes 20 dias de outubro de 2009, mais do que 52 pessoas foram vítimas da violência na sede dos Jogos de 2016.
A promessa das autoridades é que a Olimpíada deixará inúmeros legados, um deles na área da segurança. Difícil acreditar, porém, que em menos de sete anos o poder público retome o controle de áreas abandonadas a sua própria sorte e dominadas por um verdadeiro poder paralelo. Isso exige não apenas a aplicação de centenas de milhões de reais para se equipar as forças de segurança, como já foi prometido, mas principalmente investimentos pesadíssimos em reurbanização das favelas, educação, saúde e programas efetivos de inclusão de jovens carentes.
Espera-se que tudo isso seja feito, apesar de ser mais fácil apostar que apenas haverá uma trégua entre traficantes e policiais durante as duas semanas dos Jogos de 2016, voltando tudo a ser como antes quando a pira olímpica for apagada. E o mais triste de toda a situação é saber que um país precisa ter o pretexto de sediar um grande evento internacional para só então pensar em se mobilizar para cumprir com obrigações básicas.